Fernanda Letícia de Souza*

A notícia da necessidade de isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus caiu como uma bomba no universo do esporte de alto rendimento. Os atletas viram na pausa nos treinamentos e competições, um ano a menos na carreira esportiva. Afinal, sem treinar e competir, como se manter no topo?

A crença de quanto mais melhor, sempre foi absoluta entre técnicos e atletas. Altas cargas de treino significavam melhores performances. Por isso, o adiamento das grandes competições e a realocação do treino para o espaço de casa, com cargas bem menos elevadas, trouxeram desânimo e desespero para aqueles que almejavam recordes e medalhas.

No entanto, a volta das competições, aos poucos, a partir do mês de agosto, trouxe surpresas. Contrariando os prognósticos, alguns atletas mostraram que o período de “descanso” durante o auge da pandemia pode ter sido benéfico. É o caso do ugandês, Joshua Chepteguei que, em seu retorno a competições de atletismo, quebrou o recorde mundial da prova dos 5000 metros.

Na natação, houve quebra de recordes nacionais em nove países nos últimos dois meses e o italiano Gregorio Paltrinieri, simplesmente destruiu o recorde da prova dos 1500 metros nado livre, fazendo a segunda melhor marca de toda a história da prova. Assim como o americano Ryan Crouser, que no seu primeiro arremesso de peso em competição após o isolamento, atingiu a distância de 22,91 metros, a quarta melhor da história mundial desta prova.

Especialistas parecem agora começar a considerar que a pausa pode ser necessária, principalmente para atletas que costumam competir meses seguidos com o desgaste das longas viagens. Os resultados obtidos na pós-pandemia vêm ao encontro de uma teoria já defendida e aplicada por muitos treinadores: o período de polimento – tipo específico de treino que precede as competições importantes.

A carga de um treinamento pode ser definida como a combinação de três varáveis principais: intensidade, volume e frequência. Assim, no período de polimento, os profissionais precisam adequar estas variáveis a fim de reduzir os níveis de fadiga física e emocional de seus atletas. Estudos demonstram que reduções de intensidade ou frequência de treinamento no período de polimento não trazem melhoras de performances nas competições.

O ajuste da carga de treinamento no período de polimento deve ser feito pela variável volume. A redução de 41% a 60% do volume de treino aplicado no pré-polimento traz resultados significativos na performance competitiva e esta redução é mais eficiente quando feita por meio da diminuição do tempo de cada sessão de treinamento, ao invés da redução do número de sessões.

Enquanto os atletas pensavam estar perdendo seu ano competitivo com treinos menos volumosos e adaptados durante o isolamento, na verdade estavam vivenciando um período de polimento. Ao voltar às competições, mais descansados, mas sem atingir níveis de destreinamento, pois mantiveram uma rotina de treinos, eles partiram para a quebra de recordes e surpreenderam treinadores e torcedores com performances acima do esperado.

Os resultados pós-pandemia provam que talvez seja o momento para técnicos e atletas repensarem suas rotinas e incluírem mais uma variável nos treinamentos: o merecido descanso.

Autora: Fernanda Letícia de Souza é especialista em Fisiologia do exercício e prescrição do exercício físico, professora da área de Linguagens Cultural e Corporal nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física do Centro Universitário Internacional Uninter.

*É especialista em Fisiologia do exercício e prescrição do exercício físico.

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