As manifestações racistas contra o jogador Mario Balotelli, no duelo entre o Hellas Verona e Brescia, em novembro passado, pelo Campeonato Italiano, repercutiram no mundo e nos trouxeram, com isso, a velha discussão já tão debatida, porém, infelizmente, tão necessária de se colocar à tona: o racismo. O jogador não escondeu sua revolta pelo que disse ter ouvido dos torcedores quando pegou a bola com as mãos perto da bandeirinha de escanteio e chutou em direção a arquibancada. Teve até quem alegasse que não houve preconceito contra o atacante, a exemplo do prefeito da cidade, Federico Sboarina, que o acusou de estar difamando a cidade de Verona.

Símbolo da luta contra o racismo no país, Balotelli volta e meia se vê envolvido em discussões a respeito do tema. Em janeiro de 2017, quando atuava pelo Nice, da França, o atacante afirmou ter ouvido sons de macaco emitidos pela torcida do Bastia no empate de 1 x 1 entre as duas equipes. Depois da partida ele questionou as autoridades que, segundo ele, foram omissas no caso.

No fato mais recente, apesar da campanha do prefeito da cidade e de vereadores tentando punir o jogador, a diretoria do clube conseguiu dar uma resposta às
"provocações": o líder da torcida organizada do Hellas, Luca Castellini, que se diz inocente, foi banido dos jogos do clube até 2030. E o Hellas Verona também sofreu
punição pelo Tribunal Disciplinar do Campeonato Italiano.

Assim como ocorreu com Balotelli, são frequentes as ofensas racistas e discriminatórias contra jogadores em campos de futebol ao redor do mundo. Mesmo com as punições anunciadas para torcedores e equipes, fatos lamentáveis como estes não param de acontecer e por quê? O futebol nada mais é do que um reflexo da sociedade, que carrega uma herança de intolerância e preconceito. O povo europeu, a quem fazemos questão de nomeá-los “civilizados”, por vezes nos apresenta esse triste retrato e nos faz lembrar que estamos, todos, muito longe de sermos “humanos” de fato.

E não bastasse o infortúnio, o referido “torcedor” ainda afirmou em entrevista a uma rádio local que Baloletti “nunca será totalmente italiano”. Tanta intransigência no futebol, como na vida, é inaceitável sob todos os pontos de vista, pois a discussão aqui é sobre respeito ao outro como indivíduo dotado de direitos e deveres, independente de cor, credo, gênero ou religião.

O jogador é filho de pais ganeses, mas nasceu em Palermo, na Itália, e foi adotado por uma família italiana aos três anos de idade. Após os insultos, times como o próprio Hellas e a Roma enviaram mensagens de apoio através de comunicado e mensagens nas redes sociais.

Acredito que uma postura tão pouco civilizatória compromete a legitimidade da competitividade, tornando a disputa um lugar de negação dos conceitos democráticos. E essa marca podemos encontrar tanto na Europa, na América Latina quanto, infelizmente, em todos os continentes. Trazendo para o Brasil, em seu livro Torcidas Organizadas de Futebol, Luiz Henrique de Toledo afirmou que tais padrões de comportamento verbal reportam-se de maneira dramática sempre aos temas de características da sociedade, como a representação de uma certa proeminência da condição masculina, códigos de sexualidade, relações de mando e obediência, estereótipos sociais, desigualdades e hierarquias (1996, p. 72).

Pensando nisso, acredito que sempre é tempo de dar bons exemplos e começar, por nós mesmos, a mudar essa realidade. Como vimos acima, sabemos que o racismo é estrutural em nossa sociedade, porém, podemos e devemos, de forma urgente, fazer a nossa parte, seja na educação dos nossos filhos, seja no tratamento com o outro, seja no repúdio a qualquer tipo de discriminação, ainda que de brincadeira. Pois o preconceito, seja ele qual for, não tem a mínima graça!

(Crédito da imagem: EPA)
Amanda Farias01 MAI 2020
*É jornalista e mestra em Sociologia